Como todo
bom e velho diário, este espaço tornar-se-á meu refúgio, meu confessionário,
meu cantinho aconchegante, que substituirá aquele colo de mamãe que todos
queremos de vez em quando.
Bom, alguns
escrevem poemas (eu já escrevi vários, perdi a conta de quantos), outros
compunham músicas, uns tocam, outros dançam... Cada um encontra uma forma de se
desvencilhar de seus problemas, dos problemas que nossas mentes criam e causam.
Eu resolvi
que já é hora de parar de fugir e começar a encarar meus problemas... Pode ser
um pouco tarde, talvez não... Não sei. Mas eu tinha que tomar alguma atitude, e
ela começou a se estabelecer em minha mente no domingo a noite, quando percebi
que SIM, eu realmente preciso de ajuda, mas não qualquer ajuda. Preciso de uma
ajuda especializada.
Você deve
estar se perguntando "Porque o título é 'O início do fim'?"
Bem, eu
respondo...
Sempre fui
psicologicamente "atordoada". Mas as coisas pioraram de uns tempos
pra cá, mais precisamente, a quatro anos.
Iniciei o
curso de Enfermagem em uma universidade estadual. Foi tipo "ÓÓÓÓÓ" na
família. O que, penso que ninguém saiba, é que comecei o curso por birra, não
por vontade propriamente dita. Eu fazia Química na federal, na cidade vizinha,
decidi que queria fazer Filosofia, minha mãe se opôs, disse que se eu quisesse
continuar indo para a cidade vizinha, eu que continuasse na federal. Pois bem,
disse que então faria enfermagem (ironia, sempre achei quem faz esse curso
doente, acho que pelo fato de estar envolvido até as unhas com doenças), ela me
olhou com cara de desafio, disse "Em enfermagem você não
passa!"
DESAFIO
ACEITO! Passei. Em décimo lugar, depois de praticamente um ano sem ver nada
relacionado ao vestibular, e aqui estou eu...
Tive minhas
primeiras crises de Ansiedade e Ciatalgia no primeiro ano de faculdade, nada
muito forte, ou que merecesse atenção específica, as crises não eram
frequentes, aconteciam a cada 4 meses, mais ou menos. Não dei importância,
afinal, na minha vida, quase nada tem importância.
No segundo
ano, tornaram-se mais frequentes e intensas, principalmente a ciatalgia. Essa
era intensa a ponto de eu perder totalmente a sensibilidade da perna direita e
a esquerda formigar intensamente. A ponto de travar minhas pernas e eu não
conseguir levantar, sair do lugar. A ponto de formarem bolas, do tamanho de
bolas de tênis de mesa (Ping-Pong) na região lombar das minhas costas.
Ainda assim,
não dei importância, não relatei à minha mãe, não procurei um médico, nenhum
tipo de auxílio com relação à doença. E a cada crise de Ciatalgia, a ansiedade
se tornava maior. Por que eu queria que aquela sensação de perca, aquela
sensação de formigamento passasse, parasse.
Final do
segundo ano, comecei a trabalhar a noite, em uma faculdade particular. Era
secretária de dois cursos. Iniciei na semana acadêmica de ambos. Agitação.
Tempo, era o que eu menos tinha.
Início do
terceiro ano, ainda trabalho como secretária dos dois cursos na faculdade,
durante aula dos professores e coordenadores dos cursos, estou sozinha na
coordenação.
Me sinto
estranha, tremores no corpo, os dedos formigam, começo a ter falta de ar, visão
começa a ficar turva. Ligo para a Maria, no laboratório, ela pede se consigo
descer até lá. O laboratório fica no subsolo, eu no terceiro andar. Desço
devagar, quando chego quase desmaio em frente a ela e aos coordenadores. Eles
me sentam em uma cadeira e chamam a enfermeira. Primeira crise de
ansiedade, primeiro internamento.
Diagnóstico
Clínico: CID-10 F41.1 Transtorno de Ansiedade Generalizado.
Encaminhamento
para UBS, acompanhamento e tratamento com Psicólogo/Psiquiatra. Acho que ainda
não era o caso de medicamentos.
Estou até
hoje esperando sair esse acompanhamento/tratamento, faz praticamente dois anos,
e nada ainda.
Ainda é o
terceiro ano, sai do meu emprego. Estágio em UBS (Unidade Básica de Saúde, ou
posto de saúde). São oito horas da manhã, chamo uma paciente para a avaliação
de enfermagem, estamos na sala a professora, duas colegas de curso, duas
pacientes e eu. Peço para minha paciente se sentar enquanto me viro para pegar
o esfigmomanômetro e o estetoscópio, quando os alcanço, minha professora só tem
tempo de levantar e me segurar. Ela me senta na cadeira e pede o que sinto, não
sei dizer, a sensação é familiar, mas ainda assim é estranha. Mão formigando,
visão turva, e muita, muita dificuldade em respirar. É uma crise de ansiedade,
mas ela é pior que a outra.
A professora
chama a médica, ela está ocupada atendendo a uma paciente, mas diz que já está
indo. Sou colocada em uma maca, enquanto a professora tenta me acalmar, minhas
colegas não sabem o que fazer. Nunca presenciamos pessoas em início de crise,
até aquele momento. A médica chega ao consultório, e me pergunta se ja tenho
algum diagnóstico, digo com os dentes semicerrados que tenho T.A.G., ela me
pede se faço uso de medicamento, balanço a cabeça em sinal negativo. Ela me
prescreve um I.V. para o momento, para me acalmar, e Rivotril®, duas gotas
por dia, ao final do dia.
Nas duas ou
três primeiras semanas, tomo certinho o medicamento, então paro.
Não sei exatamente
por que parei, sei que parei. Acho que tinha medo de viciar, ou coisa do tipo.
No decorrer
do terceiro ano de enfermagem, várias crises de ansiedade me
acompanharam.
Iniciei
acompanhamento com psicólogo na universidade.
Ele tenta me
fazer relaxar na sala, enquanto espera que eu comece a falar. Não me sinto a
vontade para falar com ele, ele não é meu amigo, nem o conheço, enfim. Ele
pergunta meu nome, minha idade, e pede para q eu fale. Começo a falar pouco,
com timidez, receio. Ele pede o que gosto de fazer, a resposta é única. VER
ANIME. Ele se ajeita na cadeira, e pede qual anime que mais gosto. Amo
InuYasha, sempre amei, mas naquele momento, estava me apaixonando por Gosick.
Ele pede o porque, digo que é porque Victorique de Blois, a personagem
principal, se parece muito comigo.Ele pede como ela é, digo o que me chama a
atenção na personagem. Aprisionada pelo pai, forçada a fazer coisas que vão
contra sua vontade, mas sempre disposta a ajudar os amigos de verdade, no caso
Kujo-kun.
Ele pede se
me identifico com ela, digo que sim. E ali começa uma viagem que não queria
fazer naquele momento. Uma viagem ao meu passado, minha infância.
Não sei
como, nem porque, mas de alguma forma e por algum motivo eu bloqueio minhas
memórias. Tudo o que me faça lembrar acontecimentos anteriores à 2003. Na
verdade, acho que sei o motivo, mas não quero pensar nisso agora.
Ele
questiona sobre minha infância, pergunta, instiga minha memória, mas nada. Não
lembro de nada. Ás vezes coisas vagas, vozes, sombras... E é aqui que começa o
problema atual.
Quarto ano, tenho dependências no curso. Reprovei em algumas matérias.
Ultimamente
tenho tido muitos lapsos de memória, vertigens, visão turva.
Sentimentos
e lembranças invadem minha mente, fazem meu psicológico, meu emocional
oscilarem de tal forma, que é quase impossível deter o que vem a seguir.
Crises, as vezes de choro, as vezes de riso, as mais frequentes são de raiva, e
eu nem mesmo sei o porque. O porque dessa raiva, dessa angústia.
E tudo isso
tem ficado tão intenso com o passar dos dias, que tenho medo de sair de dentro
do quarto. Medo de fazer algo, comigo mesma, da qual eu me arrependa
depois.
Penso que
meu diagnóstico clínico, já não é mais CID-10 F41.1, mas CID-10 F41.2 -
Transtorno Misto Ansioso-Depressivo.
Mas não me
preocupo, porque o que acontecia comigo, nunca teve importância. Ninguém
nunca me olhou por um momento apenas, e percebeu que aquele meu sorriso, aquela
expressão alegre, fazia parte da máscara. Faz parte da máscara.
Domingo a
noite, enquanto fugia do sono e do medo das lembranças, percebi que realmente
necessito de ajuda. Decidi que procuraria por ajuda. Mas sou fraca demais pra
lutar comigo mesma. Ficar acomodada em mim é mais fácil, continuar usando as
máscaras é mais fácil. Não quero iniciar terapia novamente. Me sentia tão
frustrada comigo mesma, porque eu não sabia, nunca sabia o que poderia ter
acontecido, nunca lembrava da minha vida até os 12 anos, da minha casa na
cidadezinha onde morava. E agora essas lembranças, essas memórias me perseguem
e não me deixam em paz. Me assustam, quando começo a cochilar, com suas vozes
cortantes, doces, suaves, irritadas, nervosas. Seus gritos oscilantes em meus
ouvidos, como se fosse naquele momento, e não apenas uma lembrança de anos
atrás.
Tenho medo.
Choro todas as noites, tentando entender o que está acontecendo. Coloco minha
máscara durante o dia, não quero ninguém me olhando com dó. Não quero que vejam
minhas olheiras depois de uma noite acordada, lendo, vendo filmes ou séries.
Não quero me fazer de vítima de mim. Não quero SER vítima de mim.
Quero que
isso acabe, mas não sei como.
Não sei o
que fazer. E como não gosto de falar, escrevo.
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