quinta-feira, 3 de abril de 2014

O início do fim...

Como todo bom e velho diário, este espaço tornar-se-á meu refúgio, meu confessionário, meu cantinho aconchegante, que substituirá aquele colo de mamãe que todos queremos de vez em quando.
Bom, alguns escrevem poemas (eu já escrevi vários, perdi a conta de quantos), outros compunham músicas, uns tocam, outros dançam... Cada um encontra uma forma de se desvencilhar de seus problemas, dos problemas que nossas mentes criam e causam.
Eu resolvi que já é hora de parar de fugir e começar a encarar meus problemas... Pode ser um pouco tarde, talvez não... Não sei. Mas eu tinha que tomar alguma atitude, e ela começou a se estabelecer em minha mente no domingo a noite, quando percebi que SIM, eu realmente preciso de ajuda, mas não qualquer ajuda. Preciso de uma ajuda especializada.

Você deve estar se perguntando "Porque o título é 'O início do fim'?"
Bem, eu respondo...
Sempre fui psicologicamente "atordoada". Mas as coisas pioraram de uns tempos pra cá, mais precisamente, a quatro anos.
Iniciei o curso de Enfermagem em uma universidade estadual. Foi tipo "ÓÓÓÓÓ" na família. O que, penso que ninguém saiba, é que comecei o curso por birra, não por vontade propriamente dita. Eu fazia Química na federal, na cidade vizinha, decidi que queria fazer Filosofia, minha mãe se opôs, disse que se eu quisesse continuar indo para a cidade vizinha, eu que continuasse na federal. Pois bem, disse que então faria enfermagem (ironia, sempre achei quem faz esse curso doente, acho que pelo fato de estar envolvido até as unhas com doenças), ela me olhou com cara de desafio, disse "Em enfermagem você não passa!" 
DESAFIO ACEITO! Passei. Em décimo lugar, depois de praticamente um ano sem ver nada relacionado ao vestibular, e aqui estou eu...

Tive minhas primeiras crises de Ansiedade e Ciatalgia no primeiro ano de faculdade, nada muito forte, ou que merecesse atenção específica, as crises não eram frequentes, aconteciam a cada 4 meses, mais ou menos. Não dei importância, afinal, na minha vida, quase nada tem importância.
No segundo ano, tornaram-se mais frequentes e intensas, principalmente a ciatalgia. Essa era intensa a ponto de eu perder totalmente a sensibilidade da perna direita e a esquerda formigar intensamente. A ponto de travar minhas pernas e eu não conseguir levantar, sair do lugar. A ponto de formarem bolas, do tamanho de bolas de tênis de mesa (Ping-Pong) na região lombar das minhas costas. 
Ainda assim, não dei importância, não relatei à minha mãe, não procurei um médico, nenhum tipo de auxílio com relação à doença. E a cada crise de Ciatalgia, a ansiedade se tornava maior. Por que eu queria que aquela sensação de perca, aquela sensação de formigamento passasse, parasse.
Final do segundo ano, comecei a trabalhar a noite, em uma faculdade particular. Era secretária de dois cursos. Iniciei na semana acadêmica de ambos. Agitação. Tempo, era o que eu menos tinha.
Início do terceiro ano, ainda trabalho como secretária dos dois cursos na faculdade, durante aula dos professores e coordenadores dos cursos, estou sozinha na coordenação. 
Me sinto estranha, tremores no corpo, os dedos formigam, começo a ter falta de ar, visão começa a ficar turva. Ligo para a Maria, no laboratório, ela pede se consigo descer até lá. O laboratório fica no subsolo, eu no terceiro andar. Desço devagar, quando chego quase desmaio em frente a ela e aos coordenadores. Eles me sentam em uma cadeira e chamam a enfermeira.  Primeira crise de ansiedade, primeiro internamento.
Diagnóstico Clínico: CID-10 F41.1 Transtorno de Ansiedade Generalizado.
Encaminhamento para UBS, acompanhamento e tratamento com Psicólogo/Psiquiatra. Acho que ainda não era o caso de medicamentos.
Estou até hoje esperando sair esse acompanhamento/tratamento, faz praticamente dois anos, e nada ainda. 
Ainda é o terceiro ano, sai do meu emprego. Estágio em UBS (Unidade Básica de Saúde, ou posto de saúde). São oito horas da manhã, chamo uma paciente para a avaliação de enfermagem, estamos na sala a professora, duas colegas de curso, duas pacientes e eu. Peço para minha paciente se sentar enquanto me viro para pegar o esfigmomanômetro e o estetoscópio, quando os alcanço, minha professora só tem tempo de levantar e me segurar. Ela me senta na cadeira e pede o que sinto, não sei dizer, a sensação é familiar, mas ainda assim é estranha. Mão formigando, visão turva, e muita, muita dificuldade em respirar. É uma crise de ansiedade, mas ela é pior que a outra. 
A professora chama a médica, ela está ocupada atendendo a uma paciente, mas diz que já está indo. Sou colocada em uma maca, enquanto a professora tenta me acalmar, minhas colegas não sabem o que fazer. Nunca presenciamos pessoas em início de crise, até aquele momento. A médica chega ao consultório, e me pergunta se ja tenho algum diagnóstico, digo com os dentes semicerrados que tenho T.A.G., ela me pede se faço uso de medicamento, balanço a cabeça em sinal negativo. Ela me prescreve um I.V. para o momento, para me acalmar, e Rivotril®, duas gotas por dia, ao final do dia. 
Nas duas ou três primeiras semanas, tomo certinho o medicamento, então paro. 
Não sei exatamente por que parei, sei que parei. Acho que tinha medo de viciar, ou coisa do tipo.
No decorrer do terceiro ano de enfermagem, várias crises de ansiedade me acompanharam. 

Iniciei acompanhamento com psicólogo na universidade. 
Ele tenta me fazer relaxar na sala, enquanto espera que eu comece a falar. Não me sinto a vontade para falar com ele, ele não é meu amigo, nem o conheço, enfim. Ele pergunta meu nome, minha idade, e pede para q eu fale. Começo a falar pouco, com timidez, receio. Ele pede o que gosto de fazer, a resposta é única. VER ANIME. Ele se ajeita na cadeira, e pede qual anime que mais gosto. Amo InuYasha, sempre amei, mas naquele momento, estava me apaixonando por Gosick. Ele pede o porque, digo que é porque Victorique de Blois, a personagem principal, se parece muito comigo.Ele pede como ela é, digo o que me chama a atenção na personagem. Aprisionada pelo pai, forçada a fazer coisas que vão contra sua vontade, mas sempre disposta a ajudar os amigos de verdade, no caso Kujo-kun.
Ele pede se me identifico com ela, digo que sim. E ali começa uma viagem que não queria fazer naquele momento. Uma viagem ao meu passado, minha infância.

Não sei como, nem porque, mas de alguma forma e por algum motivo eu bloqueio minhas memórias. Tudo o que me faça lembrar acontecimentos anteriores à 2003. Na verdade, acho que sei o motivo, mas não quero pensar nisso agora.

Ele questiona sobre minha infância, pergunta, instiga minha memória, mas nada. Não lembro de nada. Ás vezes coisas vagas, vozes, sombras... E é aqui que começa o problema atual.

Quarto ano, tenho dependências no curso. Reprovei em algumas matérias.
Ultimamente tenho tido muitos lapsos de memória, vertigens, visão turva. 
Sentimentos e lembranças invadem minha mente, fazem meu psicológico, meu emocional oscilarem de tal forma, que é quase impossível deter o que vem a seguir. Crises, as vezes de choro, as vezes de riso, as mais frequentes são de raiva, e eu nem mesmo sei o porque. O porque dessa raiva, dessa angústia.
E tudo isso tem ficado tão intenso com o passar dos dias, que tenho medo de sair de dentro do quarto. Medo de fazer algo, comigo mesma, da qual eu me arrependa depois. 
Penso que meu diagnóstico clínico, já não é mais CID-10 F41.1, mas CID-10 F41.2 - Transtorno Misto Ansioso-Depressivo.

Mas não me preocupo, porque o que acontecia comigo, nunca teve importância. Ninguém nunca me olhou por um momento apenas, e percebeu que aquele meu sorriso, aquela expressão alegre, fazia parte da máscara. Faz parte da máscara.
Domingo a noite, enquanto fugia do sono e do medo das lembranças, percebi que realmente necessito de ajuda. Decidi que procuraria por ajuda. Mas sou fraca demais pra lutar comigo mesma. Ficar acomodada em mim é mais fácil, continuar usando as máscaras é mais fácil. Não quero iniciar terapia novamente. Me sentia tão frustrada comigo mesma, porque eu não sabia, nunca sabia o que poderia ter acontecido, nunca lembrava da minha vida até os 12 anos, da minha casa na cidadezinha onde morava. E agora essas lembranças, essas memórias me perseguem e não me deixam em paz. Me assustam, quando começo a cochilar, com suas vozes cortantes, doces, suaves, irritadas, nervosas. Seus gritos oscilantes em meus ouvidos, como se fosse naquele momento, e não apenas uma lembrança de anos atrás.
Tenho medo. Choro todas as noites, tentando entender o que está acontecendo. Coloco minha máscara durante o dia, não quero ninguém me olhando com dó. Não quero que vejam minhas olheiras depois de uma noite acordada, lendo, vendo filmes ou séries. Não quero me fazer de vítima de mim. Não quero SER vítima de mim.
Quero que isso acabe, mas não sei como. 

Não sei o que fazer. E como não gosto de falar, escrevo.

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